
01/07/07 PORTUGAL: Jogo é tão viciante como droga
Estudos científicos recentes sugerem que os mecanismos cerebrais que conduzem ao jogo compulsivo são semelhantes aos dos consumidores de drogas que se tornam dependentes de uma substância.
Depois de já em 2006 o XIX Encontro das Taipas, seguindo as tendências internacionais, incluir um painel intitulado ‘Dependências sem substâncias’, onde se abordaram os jogos de azar, internet e videojogos, a edição de Maio da revista ‘Science & Vie’, num amplo dossiê dedicado às drogas (incluindo álcool e tabaco), reservou um artigo para ‘O aumento dos vícios sem drogas’, destacando o jogo a dinheiro e os casinos.
O artigo aborda, entre outros assuntos, questões como as ligações cerebrais e libertação de substâncias endógenas (existentes no corpo humano, neste caso no cérebro, como a dopamina e a serotonina), associadas ao prazer ou falta dele.
Com recurso a imagens obtidas por ressonância magnética, a revista mostra que o prazer de “ganhar ao jogo”, neste caso a dinheiro e em casino, como na roleta ou no black jack, ilumina – no sentido em que afecta – num jogador compulsivo exactamente as mesmas zonas cerebrais que são activadas pelo consumo de uma dose de heroína ou cocaína por parte de um toxicodependente.
IMPACIENTE ESPERA
Mesmo quem nunca teve problemas de jogo, se alguma vez assistiu à abertura de um casino (em Portugal, por volta das 15h00), viu um espectáculo que dificilmente se esquece: jogadores com mal disfarçada impaciência à espera que se abram as portas para rapidamente correrem em direcção à máquina talismã, normalmente nas chamadas slot machines.
Menos estudado e conhecido do que a toxicodependência, o jogo compulsivo afecta cerca de 1% de todos os jogadores (segundo números da Associação Portuguesa de Casinos), caracterizando-se pela repetição mecânica dos gestos e pela permanência horas a fio no interior da sala de jogo, indiferente a tudo o resto.
Tal como na dependência das drogas, os jogadores compulsivos perdem o autodomínio e capacidade de controlarem quer os ganhos e perdas de dinheiro quer o uso dos tempos livres. Com a chegada da internet e dos casinos on-line, este tipo de comportamento desviante tem vindo a crescer exponencialmente, ao ponto de haver países (como França) onde já há serviços hospitalares dedicados especificamente a este tipo de patologias.
As dependências, com ou sem drogas, têm um ponto em comum, segundo os cientistas: a disfunção cerebral das pessoas mais propensas ao vício e que tendem a produzir menor quantidade de dopamina, substância interna responsável pela sensação de prazer.
No caso dos vícios sem drogas, a solução para a pessoa deficitária em prazer natural passa por estimular as hormonas de stress. Fica ainda outra certeza, a de que o abuso do jogo tem consequências menos gravosas para a saúde do que o abuso das drogas: não aumenta o risco de doenças infecto-contagiosas, cirrose (caso do álcool) ou cancro de pulmão (devido ao tabagismo).
CASINOS PORTUGUESES BARRAM ACESSO A 250 PESSOAS
Segundo a Associação Portuguesa de Casinos (APC), são cerca de 250 os jogadores proibidos de aceder a estas salas de jogo em Portugal. Estasproibições são decretadas pela Inspecção-Geral de Jogos e aplicam-se a todos os casinos nacionais e não só a uma determinada e específica sala de jogo. Este conjunto de pessoas abrange tanto as que foram proibidas a seu pedido, como as que acabaram por ser expulsas por violação das regras dos casinos ou por iniciativa dos seus responsáveis na sequência de “procedimentos instaurados” contra os jogadores. Quando a iniciativa parte do jogador, não tem de ser indicado o motivo pelo qual requere que lhe seja vedado o acesso, o que dificulta a triagem de dados de modo a perceber quantos são autênticos jogadores compulsivos (e incontroláveis); quantos passam por um problema mais momentâneo e esporádico e quantos têm o acesso vedado por iniciativa dos casinos.
“SENTIA UM PRAZER COMO COM UM ORGASMO” (‘Pedro’, funcionário público, 34 anos, não revela a identidade mas aceitou testemunhar ao CM como durante dez anos foi jogador compulsivo e chegou a passar 12 horas num casino)
– Correio da Manhã – Como se tornou jogador compulsivo?
– ‘Pedro’ – Ainda hoje me é difícil falar nisso. Comigo foi um processo instantâneo. Joguei numa slot machine. Ganhei. Pensei logo que se tivesse apostado mais, mais teria ganho.
– Quanto gastou?
– Não é a quantia que define o vício. Durante dez anos gastei todos os ordenados que recebia e ainda mais algum de dívidas. O jogador compulsivo perde sempre. Só vivia para jogar.
– Não conseguia dominar-se?
– Para ter uma ideia da doença uma vez gastei o ordenado em poucas horas. Só percebi quando o multibanco do casino recusou um levantamento.
– E a seguir?
– Foram dois ou três dias de tormento: insónias, a pensar nas dívidas e em como pagar, e depois a sensação de não poder jogar…
– Ao jogar sentia-se diferente?
– Só entrar no casino dava logo uma sensação de força e poder. Desapareciam as dívidas e outras preocupações. Sentia um prazer como com o orgasmo!
– …!?
– Cheguei a jogar 12 horas seguidas. Desde que o casino abria, às 15h00, até fechar, às 03h00 do dia seguinte. Só parava para ir à casa de banho. Abstraía-me de todas as outras dificuldades.
– Alguma vez esteve proibido de entrar num casino ou pediu para ser barrado?
– Não. Nem fui proibido nem o pedi, mas acredito que isso possa ajudar.
– Não ameaçou o emprego?
– Aguentei o emprego porque mesmo a deitar-me tarde conseguia levantar-me cedo. Se calhar porque não bebia. Às vezes fazia de manhã o que era suposto demorar o dia todo para estar livre e ir jogar.
– Quando se deu conta do problema e pediu ajuda?
– Foi a minha ex-mulher e mãe do meu filho que me encaminhou para o grupo de auto-ajuda. É estranho que o Estado, que tanto ganha com o jogo, tenha mais apoios para os toxicómanos ou alcoólicos do que para os jogadores compulsivos.
– Estes grupos resultam?
– Há algo de mágico nestes grupos. Comecei cheio de receios, até porque o encontro se realizava numa igreja. Quando comecei a ouvir pessoas com histórias iguais, os medos passaram e a partilha tem resultado. Damos força uns aos outros.
REALIDADE NACIONAL
AJUDA ANÓNIMA
Sob o mesmo princípio dos 12 passos e a exemplo dos Alcoólicos Anónimos ou Narcóticos Anónimos os Jogadores Anónimos dispõem de vários grupos de entreajuda em várias zonas, entre as quais Lisboa (919 449 917) e Porto (919 916 611).
OUTROS GRUPOS
Na página da internet intitulada Profissionais dos Casinos, além dos Jogadores Anónimos são referidos outros grupos de auto-ajuda para jogadores compulsivos como a ERA Portugal, a Villa dos Passos (também portuguesa), além de grupos espanhóis e até norte-americanos.
PORTUGAL NA MÉDIA
Segundo números divulgados ao CM pela Associação Portuguesa de Casinos (APC), são cerca de 1% do total de jogadores aqueles que alguma vez sofreram problemas associados à forma de jogar. Este valor põe Portugal ao mesmo nível da França.
SINAIS DE RISCO
Sinais de alerta são: pôr em perigo relação, estudo ou emprego; tentar recuperar quando se perde; insistir para ganhar mais; jogar até ficar sem nada; mentir, roubar ou pedir emprestado para jogar; gastar dinheiro destinado a outro fim; vender bens para jogar ou pagar dívidas.
PEDIDOS EXTREMOS
Alguém que perca o autodomínio, no que ao jogo diz respeito, e fique incapaz de evitar consequências nefastas para a sua vida pessoal e familiar pode solicitar, junto da APC, a proibição de acesso aos casinos. O motivo não tem de ser explícito e a proibição é válida para todos os casinos nacionais.
VIRTUAIS E ILEGAIS
Além de ilegais em Portugal, os casinos on-line não permitem fiscalizar o acesso de menores (com cartões de crédito dos pais) e impossibilitam o controlo de jogadores compulsivos.
Fonte: Correio da Manhã
Rui Arala Chaves
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Através das dimensões de análise e indicadores que compõem aqueles requisitos, o Observatório permite efectuar uma avaliação, independente e rigorosa dos operadores, no que respeita às suas políticas de segurança e protecção dos consumidores nas mais variadas vertentes.
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