Nunca se venderam tantas raspadinhas: mais de 625 milhões de euros em 2014. Em 2015 vai ser mais. Mas valerá a pena apostar? Há quem garanta que os riscos de comportamentos aditivos são grandes.
Raspámos cinco bilhetes — um de cada preço: 1, 2, 3, 5 e 10 euros. O Observador investiu 21 euros na realização deste vídeo. Recuperou um euro.
Maria Olga joga diariamente, duas vezes ao dia. Mas não raspa nada. Há uma mão (“de anjinho barroco”) que o faz por ela
Estrada de Benfica, Lisboa. Oito da manhã. Maria Olga Fialho enviuvou há menos de um ano. É reformada. 74 anos. “Ora adivinhe lá o menino que idade tenho eu?”, pergunta prontamente, envaidecida por ninguém a dizer septuagenária. É bem-apessoada, orgulhosamente vaidosa, rugas mal se lhe veem, o cabelo está imaculadamente, madeixa por madeixa, pintado de loiro, penteado à Manuela Eanes (nos seus dias no Palácio de Belém), veste tons claros, na roupa traz padrões florais – “Ele [o marido] não me queria ver enlutada quando morresse. E eu faço-lhe a vontade” –, sorri a quem passa.
Vai duas vezes por dia, de manhã cedo e ao cair da tarde, à Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Mesmo em frente à igreja, cruzando a movimentada estrada, com autocarro vai, autocarro vem, e num espaço de poucos metros, não há um nem dois, tão pouco três, mas quatro lugares onde comprar raspadinhas, entre quiosques, tabacarias e até uma casa (só) de jogo – há também, mas cada vez são menos de ano para ano, os ardinas de rua, com lotarias e raspadinhas estendidas na mão e apregoadas na voz. É um corrupio àquela hora do dia. É um entra e sai, sai e entra, raspam-se os bilhetes às centenas, vence-se, raspa-se mais um, perde-se, não se raspa mais nada e “raspa-se” dali para fora
Maria Olga traz a neta pela mão, atravessa a estrada em sprint, passada longa – nem a neta, com perninhas curtas de quem só tem cinco anos, a acompanha –, sem esperar sequer que o sinal caia para o verde, e entra na Casa da Sorte.
– Ó menina, dê-me cá uma [raspadinha] de um euro… Mas com prémio, menina! Com prémio!”, graceja ao balcão, Maria Olga, enquanto busca na mala por uma moeda com a qual pague e outra com a qual raspe.
Catarina, a neta, palmo e meio de altura, não chega ao balcão e distrai-se na vitrina. E há razão para isso: a vitrina está apinhada de Lotarias Instantâneas, boca à boca conhecidas por raspadinhas, que a enfeitam de ponta a ponta. “Vem cá à avó, vem.” E Catarina, a neta, vem. A custo, ensonada, mas vem. Maria pega-a ao colo, senta-a sobre o balcão suspenso na parede — ou “raspódromo”, como o apelida a bem-disposta avó –, e pede-lhe: “Ora raspa aqui com a moedinha, raspas?” Catarina pega prontamente na moeda de um euro que avó lhe dá. Fá-lo todos os dias. Ou quase. Haja prémio ou não haja, uma coisa é certa: a “moedinha” da avó fica com Catarina, sendo depositada por Maria Olga, mal a deixe no infantário e chegue a casa no mealheiro da petiz.
Confessa que raramente lhe sai um prémio de maior. Chega para compensar o que gasta e às vezes pagar o pequeno-almoço na pastelaria Nilo, também a dois passos dali. Mas Catarina, e é a avó quem o diz, tem uma mão afortunada. “Eu levo-a ao infantário, trago-a do infantário, e até é ela quem diz me diz: ‘Ó, avó, compra-me uma raspadinha, por favor.’ Ela gosta. Não lhe digo que não, não é? E dá-me sorte. Quando eu jogo sem ela, nunca me sai nada. E ela já raspou bons prémios. Mas é tão sabichona – tem esta cara de anjo barroco, nem sei onde é que aprendeu tanto! –, que me diz logo que o prémio é para o mealheiro dela. E é mesmo.”
Ainda que jogue diariamente, ou quase, à mesma hora de sempre, com a superstição de ser Catarina a raspar, Maria Olga não crê ter o vício da raspadinha. “Se eu quero parar, eu paro.” Mas sabe de quem o tenha. “Às vezes dá-me uma certa confusão à cabeça ver senhoras da minha idade, avós como eu, que nem tomam o pequeno-almoço como deve ser, só pedem uma bicazinha para enganar o estômago, e depois gastam aos 10 e aos 20 euros de cada vez em raspadinhas. E não tenho memória de ver nenhuma ficar rica. Sabe?, eu só jogo por distração e porque, parecendo que não, o dinheiro vai para a Santa Casa da Misericórdia – e a Santa Casa ajuda quem precisa, não é?”
Conversa puxa conversa, passou-se um quarto de hora num sopro, mas Maria Olga tem que deixar a neta no infantário. E lá seguem as duas, com a mão entrelaçada, rua adiante — em sprint, pois claro. Uma das mãos hoje não foi de fortuna. Mas o bolso de Catarina vai a tilintar, com a moedinha da avó.
Nunca se jogou tanto como hoje em Portugal
Não é novidade. Os números que se conhecem — e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa disponibiliza — são os de 2014. Ao Observador foi comunicado que os resultados de 2015 só serão apresentados no final do primeiro trimestre deste ano. Olhando aos primeiros 11 meses de 2014, constata-se que as vendas brutas da Lotaria Instantânea ultrapassaram os 625 milhões de euros, só superadas pelos 846 milhões de euros do Euromilhões, que continua a ser o jogo social mais lucrativo da Santa Casa.
Contudo, se se atentar à evolução das vendas entre 2014 e o período homólogo de 2013, e enquanto o Euromilhões decai um por cento, a raspadinha é o jogo que mais cresce: 15,2%. É curioso ver também que, desde 2010 e até 2014, o valor bruto da raspadinha subiu cerca de 500%. Somados, a Lotaria Instantânea e o Euromilhões valem 87% do valor bruto apostado, contabilizando os outros cinco jogos (Totoloto, Totobola, Lotaria Popular, Lotaria Clássica e Joker; em 2015 surgirão os valores respeitantes à aposta desportiva Placard) não mais do que 13% do valor total.
Fonte: Observador
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