
02/02/08 PORTUGAL: Assinatura de Telmo deu “jackpot” à Estoril-Sol
Escutas revelam que um parecer da Inspecção de Jogos terá tido duas versões. Governo pede novo parecer.
Mário Assis Ferreira, director da Estoril-Sol, garante que o processo para a instalação do Casino Lisboa decorreu com toda a transparência
Um ‘tomei conhecimento’, escrito por Telmo Correia, ex-ministro do Turismo, num parecer da Inspecção-Geral dos Jogos (IGJ), ofereceu à Estoril-Sol o edifício do Casino de Lisboa. Mas, segundo dois professores de Direito Administrativo, o imóvel do Parque das Nações pertence ao Estado. Escutas telefónicas realizadas no âmbito do processo ‘Portucale’ revelam que o parecer da IGJ terá tido uma segunda versão, dado que a primeira não estaria de acordo com os interesses da empresa que explora os Casinos do Estoril e de Lisboa. E revelam também alegadas pressões junto do ex-PR Jorge Sampaio para a promulgação de um decreto que alterou a Lei do Jogo – o que veio a acontecer em Janeiro de 2005. Nobre Guedes, ex-ministro do Ambiente, e Paulo Portas, ex-ministro da Defesa, aparecem nas mesmas escutas e abordam por várias vezes o tema.
A primeira conversa interceptada (que o Expresso não pode transcrever por imposição legal) entre Mário Assis Ferreira, presidente do Conselho de Administração da Estoril-Sol, e Abel Pinheiro, ex-dirigente do CDS, acusado de um crime de tráfico de influências, aconteceu a 4 de Março de 2005. Assis Ferreira diz ao interlocutor que ainda precisa que ele faça mais um favor. O empresário afirma ter combinado com o ex-ministro Telmo Correia fazer um requerimento ao Governo, no qual a Estoril-Sol considerava que o edifício era sua propriedade plena e não revertia para o Estado no final da concessão.
O então director da Inspecção-Geral dos Jogos acabou por dar um parecer positivo. Porém, Assis Ferreira queixou-se a Abel Pinheiro da complexidade do parecer, afirmando que Telmo disse a um adjunto, Nuno Pinheiro, para este entrar em contacto com Assis Ferreira para ver se convencia Joaquim Caldeira a fazer outro parecer.
Assis Ferreira afirmou, na mesma conversa com Abel Pinheiro, que Caldeira fez novo parecer por encomenda, com a mesma data e número de ofício.
Ao Expresso, o administrador da Estoril-Sol explicou a conversa, afirmando que o primeiro documento de Caldeira era “longo e confuso e que o que interessava era a conclusão”. “Palavra de honra, a conclusão do segundo era rigorosamente a mesma. Se forem ver a minuta que ele me mandou, está lá o carácter inequívoco da não-reversibilidade do casino para o Estado. Nunca troquei qualquer argumento que influenciasse a conclusão”, garantiu Assis Ferreira.
Confrontado com o teor da conversa, Caldeira afirmou não se recordar do conteúdo. Garantiu, porém, que quando foi colocado perante a questão só elaborou um documento e não dois.
No acervo de escutas existe ainda uma conversa entre Abel Pinheiro (que não quis prestar esclarecimentos ao Expresso) e Nobre Guedes, na qual o primeiro afirma que a alteração à Lei do Jogo, em Dezembro de 2004, já com o Governo em gestão, foi promulgada por Sampaio. Pinheiro não especifica as pressões sobre o Presidente (fala num vago “nós”) e refere um Fernando, alegadamente Fernando Marques da Costa, antigo assessor em Belém.
A 14 de Março, Portas falou com Abel Pinheiro para lhe dizer que Telmo já tinha assinado o assunto do Mário Assis. Numa escuta anterior tinha sido Abel Pinheiro a pedir a Portas que intercedesse junto de Telmo para que este desse o visto ao documento do inspector.
A quem pertence o Casino
O reconhecimento da propriedade do edifício do Casino para a Estoril-Sol foi, segundo declarou Assis ao Expresso, uma condição estabelecida entre a empresa e o Governo de Durão que, em 2003, autorizou a construção. Porém, nem no decreto que autoriza a construção de um novo casino na área de concessão da Estoril-Sol, nem no aditamento ao contrato de concessão se diz que o Casino não reverte para o Estado. “O Governo de Durão considerou que a omissão e a não indicação específica significavam a não-reversão para o Estado”. Isto porque o casino ‘nasceu’ por ajuste directo e não por concurso.
Este entendimento é contrariado por especialistas em Direito Administrativo. João Pacheco de Amorim considera que “não está prevista nesta versão originária do DL 422/89, qualquer excepção à regra da reversão dos casinos para o domínio do Estado”. Na mesma linha se pronunciou o professor Pedro Gonçalves. Ambos sublinharam que nem a alteração à Lei do Jogo, em Dezembro de 2004 e promulgada por Sampaio em Janeiro de 2005, poderá mudar a interpretação, uma vez que o diploma é posterior aos factos.
O administrador da Estoril-Sol invoca a antiga lei do jogo – em vigor à época do processo do Casino de Lisboa – para sustentar a sua posição, segundo a qual “nos contratos (…) deverá fazer-se menção de que os bens locados ou cedidos, a qualquer outro título, à concessionária revertem para o Estado no termo da concessão, sob pena de nulidade”. Isto é, no decreto que autorizou a instalação do Casino, o Governo, ao não fazer constar quais os bens que reverteriam para o Estado fez com que, automaticamente, eles fossem propriedade da Estoril-Sol.
Para Pedro Gonçalves, a leitura é outra: “O que está em causa no artigo 23 são as condições de reversão de outros bens, não dos casinos”. A lei, segundo admitiu Assis Ferreira, não era clara e a empresa queria constituir um fundo de investimento dando como activo o edifício do Casino de Lisboa. Mas havia dúvidas: “Os homens do fundo de investimento disseram: ‘isto não é claro, não está totalmente expresso'”.
Telmo Correia acabou por assinar o parecer da Inspecção-Geral de Jogos, que reconhecia a propriedade do Casino de Lisboa à Estoril-Sol. Ontem, o ex-ministro disse ao Expresso: “Essa interpretação jurídica foi-me presente, e dela tomei conhecimento, no final do meu mandato. Não existiu da minha parte qualquer apreciação valorativa sobre a mesma”.
Personagens
Abel Pinheiro
Ex-dirigente do CDS/PP, está acusado pelo Ministério Público de um crime de tráfico de influências no âmbito do processo Portucale. O caso diz respeito à aprovação de um empreendimento do Grupo Espírito Santo na Herdade da Vargem Fresca, emn Benavente. Após concluir a fase de investigação, o MP extraiu certidão das peças do processo principal que têm a ver como Casino de Lisboa. Não foi aberto um inquérito. O caso está em “averiguação preventiva” no Departamento Central de Investigação e Acção Penal.
Mário Assis Ferreira
É a cara da Estoril-Sol, concessionária dos casinos de Lisboa e do Estoril. Nunca foi chamado a prestar declarações sobre a questão do Casino de Lisboa, nem na Polícia Judiciária nem no Ministério Público.
Joaquim Caldeira
Ex-inspector geral dos jogos está actualmente reformado. Fez toda sua carreira na Administração Pública.
Telmo Correia
Deputado do CDS/PP, foi ministro do Turismo durante o Governo de Santana Lopes, demitido em Dezembro de 2004 por Jorge Sampaio.
Casino é do Estado
“Não está prevista na lei qualquer excepção à regra da reversão dos casinos para o domínio do Estado” – João Pacheco de Amorim, especialistaem Direito Administrativo.
Novo parecer a caminho
A secretaria de Estado do Turismo “recomendou ao Turismo de Portugal para este pedir um novo paracer externo” sobre a questão da reversibilidade para o Estado do Casino, porque a “questão não é linear”. Esta foi a resposta do gabinete do secretário de Estado, Bernardo Trindade, após ter sido confrontado pelo Expresso com o caso. A SET disse ainda que “não existem neste Gabinete quaisquer projectos de texto que tenham estado na base da redacção envolvendo a Presidência do Conselho de Ministros”.
Fonte: Expresso
Desde 2004
Visite a nossa página no facebook … aqui
PROJECTO EUROPEU EM DESENVOLVIMENTO

The Remote Gambling Observatory aggregates transparent and credible information on the licensed operators in the various jurisdictions of the European Union, monitoring their policies for responsible gambling by internationally recognized and scientifically validated standards.
O Observatório do Jogo Remoto agrega informação, transparente e credível, sobre os operadores licenciados nas diversas jurisdições da União Europeia, monitorizando as suas políticas de jogo responsável através de requisitos reconhecidos internacionalmente e validados cientificamente.
Através das dimensões de análise e indicadores que compõem aqueles requisitos, o Observatório permite efectuar uma avaliação, independente e rigorosa dos operadores, no que respeita às suas políticas de segurança e protecção dos consumidores nas mais variadas vertentes.
Num caminho para uma regulação europeia do mercado do jogo, a transparência e o rigor da informação prestada ao público no que concerne ao jogo responsável, representa um claro contributo dos operadores licenciados para um ambiente de jogo credível, reforçando a confiança dos consumidores na segurança das suas apostas e no conhecimento de um sector comprometido com a qualidade dos seus produtos e com o respeito pelos seus clientes.
All rights reserved | Todos os direitos reservados | responsiblegambling.eu
Leave A Response
- You must be logged in to post a comment.





























