PORTUGAL: Portugueses apostam seis vezes mais na raspadinha do que antes da crise

Portugueses apostam seis vezes mais na raspadinha do que antes da criseA diferença impressiona. Se em 2010 a lotaria instantânea, mais conhecida por “raspadinha”, foi responsável por receitas brutas de 105 milhões de euros, em 2014 o valor das apostas ultrapassa os 600 milhões.

Nos primeiros 11 meses de 2014, o valor chegou aos 625 milhões de euros, e deverá fechar o ano na casa dos 680 milhões. Assim, em quatro anos, o montante apostado na “raspadinha” subiu cerca de 550%.

Isto acontece numa conjuntura em que o rendimento disponível dos portugueses foi descendo, com particular impacto a partir de Junho de 2011, data a partir da qual o plano de austeridade da troika começou a ser aplicado pelo actual Governo. É, aliás, a “raspadinha” que tem funcionado como motor de crescimento dos jogos sociais, explorados pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), que vai voltar a bater um novo recorde de receitas. Apesar disso, verifica-se o ritmo tem vindo a abrandar.

Olhando para os dados de Janeiro a Novembro (os últimos disponíveis) de 2014, verifica-se que, dos sete jogos sociais da SCML, cinco perdem receitas. Outro, o Totobola, inverte uma tendência de quedas, mas a sua subida é residual: 1,9%, equivalente a 176 mil euros. Já na “raspadinha” verifica-se um novo impulso, ao subir 15,2%, ou seja, houve mais apostas neste jogo correspondentes a 82,5 milhões de euros. Actualmente, a “raspadinha” tem o maior peso de sempre no total das receitas da SCML, ao valer 37% do total. Juntos, este jogo e o Euromilhões valem 87% do valor apostado, empurrando os outros cinco (Totoloto, Totobola, Lotaria Popular, Lotaria Clássica e Joker) para uns escassos 13% do total.

Resultado imediato
Há várias explicações para o crescimento da “raspadinha”, o único dos jogos sociais que tem resultados imediatos no acto de compra, logo, é mais propício ao consumo por impulso. Uma das explicações é o sucesso da introdução dos prémios anuais, o “pé-de-meia” e “super pé-de-meia”. São apostas mais elevadas, mas que podem resultar num prémio mensal distribuído por vários anos, o que provocou a adesão dos portugueses a este tipo de jogo. Por parte da SCML, a instituição considera que ainda está a beneficiar de um “efeito de substituição”, já que as receitas sobem, mas a despesa agregada do consumo de jogo continua a baixar. “O facto de subirmos significa que estamos a acolher parte da despesa em jogo ilegal e em outros operadores”, como os casinos e o bingo, diz Fernando Paes Afonso, vice-provedor da SCML e responsável pela área dos jogos sociais.

De acordo com os últimos dados disponíveis, nos primeiros sete meses de 2014 os casinos que operam em Portugal desceram 3,1% para os 200,2 milhões de euros. Por parte do grupo Estoril-Sol, que lidera este mercado, a queda foi de 4,6%, para os 125,3 milhões de euros. “Pese embora as previsões de ligeiro crescimento da actividade económica ao longo do segundo semestre de 2014, as políticas macroeconómicas de austeridade e de ajustamento financeiro, às quais acrescem os níveis elevados e desadequados face à conjuntura actual da fiscalidade específica da actividade de jogo nos casinos portugueses, têm condicionado fortemente a actividade operacional” dos casinos em geral e do Estoril-Sol “em particular”, lê-se no relatório do terceiro trimestre deste grupo.

Os bingos também têm conhecido uma tendência de quebra de receitas. No primeiro semestre de 2014, o valor das apostas foi de 127 milhões, menos 5% face a idêntico período de 2013. Já a SCML prepara-se para bater um novo recorde. Nos primeiros 11 meses, as receitas brutas subiram 4,2% para 1693 milhões de euros, e a estimativa aponta para cerca de 1850 milhões já com os dados de Dezembro.

Em 2015, ano em que se irá assistir à legalização do jogo online no mercado nacional, o que trará novos desafios à SCML, a instituição liderada por Pedro Santana Lopes prepara-se para lançar um jogo em regime de monopólio ligado ao desporto. Trata-se das apostas desportivas à cota (em que os ganhos dependem da menor ou maior probabilidade de sucesso do resultado escolhido, como, por exemplo, os golos marcados por uma equipa), e diz a SCML, está tudo preparado para lançar este jogo “assim que o Estado o entenda”.

Questionada sobre a expectativa ligada às apostas desportivas à cota, a SCML diz que a experiência dos seus parceiros europeus e os estudos realizados permitem-lhe “esperar uma grande adesão”, desde logo, destaca, “porque passará a ser possível fazer apostas em todos os jogos da 1.ª Liga Portuguesa de Futebol”.

Fonte: Público

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